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O INFERNO DOS HOMENS III

 

Meu peito sísmico se rompe a cada impossibilidade e ao te ver transformar migalhas em confetes de um carnaval desértico.

Travesseiros a virar estações do trem da noite, lençóis a virar segundos e desconhecidos ponteiros. A cada amanhecer um novo relógio, um novo criado, mudos.

É o silêncio que atormenta. E saber que nossas perversões ultrapassam as confissões mais sórdidas ampliam a distância do precipício entre nossas possibilidades, vítimas do “quereres” inalcançável e imutável.

Teu beijo tem sabor de línguas mortas, sombras perdidas em doses de madrugadas sem rumo e sem paz. Sabor da velocidade feroz que perdeu a capacidade de guardar lembranças ou saudade, só o vazio. Não há culpa se não há lembrança, não há cuidado quando não há tempo para sentir. Não há mais tempo, não há mais nada. E nadamos mar adentro, afogados pela onda que grita: nada!

Teu rosto está desaparecendo em minha mente, teu rosto está virando migalhas que giram nas vitrines dos açougues. É quando sinto vontade de voar para longe, bem longe, impelido pela covardia honrosa da esperança ainda não perdida.

Ah... Tempo maldito que me consome! E me faz desaparecer entre paixão e egoísmos. É desse desespero que nascem desejos perversos, a impotência diante aos fatos acende a fúria, pedra de um dominó que desliza em ruínas.

Definitivamente, é quase impossível. Somos homens.



Escrito por Ronaldo às 14h01
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Aos pássaros a liberdade, a mim um cordão umbilical.

São as fraquezas e as dores minhas maiores belezas. Brinco de possuir uma maturidade que nunca existiu, e morro criança a procurar seio, sempre dependente de alguém, um ritual que repulsa a possibilidade de estar só no universo.

Amo porque os espelhos não comportam minhas complexidades, preciso de algo tão complexo quanto eu, e meu amor nasce como fome da alma.

Quando o belo dói, tudo parece imensurável, feito formigas diante das pilastras de uma catedral gótica. Quero tanto... E sou tão pequeno.



Escrito por Ronaldo às 14h00
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Lábios, somente lábios a engolir o pôr-do-sol. Afasto minhas mãos dos bolsos para não me perder em pensamentos... A fome vem feito gafanhotos em tapeçarias verdes, e não adianta o grito de pare! Não há como controlar o desespero da alma, têm pedaços de mim que seqüestram asas quando adormeço, talvez eu alimente tais asas, talvez, a própria destruição. Vivo assim, a construir os infernos que me dão a esperança de alguns segundos, ou mais um sorriso.

Desculpa, mas já nasci com a morte nas costas, só resta saber se danço ou não com ela. E pelo que vi até hoje, ela é divertidíssima, é só não parar de brincar e gozar. E vez ou outra ver o sol nascer ou se pôr longe de casa.

 



Escrito por Ronaldo às 13h59
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O tempo não é mais o mesmo e escorre pelas rachaduras dos anos em minha pele. Perco-me na imensidão em que me transformo segundos, feito corda que gira para não arrebentar pela tensão entre o silêncio e o desespero. É quando fico surdo em músicas e só quero cantar, ouvir ou dançar, rodopiando o corpo numa tentativa de libertação explosiva.

É a frustração transmutada em fúria que me assusta e arremessa-me ao canto do quarto, agarrado aos joelhos para não parir crueldades. Não há roseira que sobreviva à roda-viva sem que acerte algo com seus espinhos. E rosa sem espinhos nada é além de morta.

Já é difícil doer e chorar, e mais difícil é ser privado disso. Sangue e dor carregam a pecha de estorvo neste mundo de sorrisos tão frios quanto o metal que os corretivam e protegem. Sorrisos em jaulas, medos de um mundo que rouba quase tudo.

Assusta-me a possibilidade da perfeição tornar-se tão acessível quanto um pão francês, a arrogância perde os limites na auto-suficiência e nos extremos da tão venerada auto-estima. É preciso faltar algo ou depender de alguém para que ainda haja um mínimo de tolerância e amor. O amor sobra onde há mais falta, é a natureza comprovando a sapiência de tentar a eternidade.

Estou envelhecendo, e um pedaço de mim já começa a racionalizar os sentimentos mais nobres. Hoje sinto o amor – que ainda me faz ver cores – uma função de defesa como a fome, dores diferentes pela mesma auto-preservação.

Se eu desisti de amar? Nunca! E mesmo que minha razão confirme ser o amor uma ilusão, é de todas a que levarei comigo com maior prazer, juntamente com a ilusão do olhar, a do tempo, a do som e a de que possa haver a eternidade.

Acho muito estúpido que toda a existência humana extinga-se em ossos e cinzas. É de uma mediocridade tamanha supor que o pensar seja somente pulsos elétricos de um cérebro que nos engana, embora eu tenha a quase certeza que ele nos engana na maior parte do tempo.

Quando assisti ao filme 21 Gramas fiquei a pensar sobre o que de nós realmente somos. Se formos somente vinte e um gramas de energia, nossa complexidade é inimaginável, é por isso que não me exijo ser simples, além disso, nunca conseguiria.

Sabe naquelas horas em que se quer dizer uma simples frase, e a única coisa que vem à cabeça são milhares de músicas ao mesmo tempo? Estou assim, desejando que meu cérebro possa executar todas as músicas, filmes, livros e outras lembranças, que amo tanto, ao mesmo tempo. Às vezes tenho sonhos assim, pura alucinação prazerosa, bom demais. É por isso que adoro estar sozinho, é quando todo e qualquer desvio extremo não possui julgamento, é quando surto e tenho os meus melhores momentos de prazer. E embora eu adore multidões, tem escândalos que só é possível fazer sozinho, sozinho diante do universo.



Escrito por Ronaldo às 13h58
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SUMMERTIME

 

O verão termina ainda quente, e eu sentindo vontade de transformar paredes em toalhas, com meu lado maldito aflorando raízes de meus poros. O piano e um toque, suaves como a pele a frigir de desejo.

O tempo desaba sobre meu corpo, sinto o grave de sua voz e a ausência de gravidade nos pensamentos. O possível se reverte em tudo.

Na cama sem degraus a temperatura sobe, o sangue ferve e infla a carne. É quando os delírios fluem entre as mãos e os pensamentos inquietam-se, sem paz e sem cais.



Escrito por Ronaldo às 13h55
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VAZIO

 

A paixão apaga-se dentro de mim, invento amados para preservar as últimas brasas e evitar que a porta se feche para sempre. Minha felicidade agarrou-se a outros caminhos, a belezas não compartilháveis; caminhos perigosos, cheios de egoísmos e necessidade de sobrevivência.

É o medo de sentir a riqueza, há tanto tempo acumulada, vazar entre os dedos. Medo que a frieza do real roube o pouco que me resta para continuar.

Guardo muito bem escondido o pedaço de mim que não tem preço, o qual realmente cuidei e alimentei com o melhor do caminho que percorri. É nele que estão minhas verdades inquestionáveis e minha força maior, tudo aquilo que me faz abrir os braços e saltar das alturas com um sorriso no rosto. É onde o choro e a gargalhada se misturam, sem limites.

O vazio cresce, a lacunar o espaço protegido pelo medo. Não sei o que é pior, se a coragem sem sucesso ou a tentativa de sobrevivência. Os olhos não mais procuram, chega um tempo que cansa observar o sol brilhar ao longe sem a possibilidade do toque e possíveis queimaduras. É quando o peito aperta, e os pensamentos começam a distorcer a razão, fazendo da realidade um território de risco, aberto a todo tipo de insanidade. Outros medos surgem e o vazio aumenta.

Não há muito a falar, as palavras começam a perder a fé no possível, e só me resta a perdição. Infelizmente o desperdício é moeda corrente e, definitivamente, migalhas não mais me enganam. Ou corto o bolo ou nem me atrevo a beliscar.

Sei que meu discurso soa desistente, e é. Mas tem algo aqui dentro que me regurgita sempre que chego aqui, no limite. Parece uma necessidade de purgar a negação e seguir em frente, um discurso que berro, amasso e jogo no lixo. Sinto cada palavra dita, mas resisto em concordar com uma mísera vírgula. Só sei que dói. E dói tanto que prefiro dizer, mesmo não querendo acreditar no que digo. Talvez a razão seja a sua própria destruição, talvez seja preciso verbalizar um pensamento para percebê-lo estúpido, quem sabe isso seja testar estradas ou possibilidades. Continuo vazio, mas testar os “talvez” possa aliviar as distâncias.



Escrito por Ronaldo às 14h37
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Histórico
10/04/2005 a 16/04/2005
27/03/2005 a 02/04/2005
13/03/2005 a 19/03/2005




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