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CAMA-LEÃO

 

Beijo o dia como a um amante desconhecido

Finjo dores para sorrir ao tédio

Que se disfarça em cores na cara de tantos palhaços

Não pinto flores para esconder meu ódio

 

Ai, ai... Minha dor há muito se foi

Eu também sei mentir, doutor

Se ainda grito, é manha que procura colo

Se ainda choro, é a manhã que ainda furta cor

 

Teus braços me envolvem em blues

Jeans sujo que cola ao corpo ilusões

Não é de platéia que sobrevive o amor

E só me toque quando do mundo nus

 

Porcelanas não adoçam tuas cascas num chá

Nem a cama, teu corpo com cheiro de chão

Não me molhe com lágrimas trazidas da rua

Nem com belezas não tuas

Só quero do tempo o gosto de já



Escrito por Ronaldo às 13h51
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O INFERNO DOS HOMENS III

 

Meu peito sísmico se rompe a cada impossibilidade e ao te ver transformar migalhas em confetes de um carnaval desértico.

Travesseiros a virar estações do trem da noite, lençóis a virar segundos e desconhecidos ponteiros. A cada amanhecer um novo relógio, um novo criado, mudos.

É o silêncio que atormenta. E saber que nossas perversões ultrapassam as confissões mais sórdidas ampliam a distância do precipício entre nossas possibilidades, vítimas do “quereres” inalcançável e imutável.

Teu beijo tem sabor de línguas mortas, sombras perdidas em doses de madrugadas sem rumo e sem paz. Sabor da velocidade feroz que perdeu a capacidade de guardar lembranças ou saudade, só o vazio. Não há culpa se não há lembrança, não há cuidado quando não há tempo para sentir. Não há mais tempo, não há mais nada. E nadamos mar adentro, afogados pela onda que grita: nada!

Teu rosto está desaparecendo em minha mente, teu rosto está virando migalhas que giram nas vitrines dos açougues. É quando sinto vontade de voar para longe, bem longe, impelido pela covardia honrosa da esperança ainda não perdida.

Ah... Tempo maldito que me consome! E me faz desaparecer entre paixão e egoísmos. É desse desespero que nascem desejos perversos, a impotência diante aos fatos acende a fúria, pedra de um dominó que desliza em ruínas.

Definitivamente, é quase impossível. Somos homens.



Escrito por Ronaldo às 14h01
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Aos pássaros a liberdade, a mim um cordão umbilical.

São as fraquezas e as dores minhas maiores belezas. Brinco de possuir uma maturidade que nunca existiu, e morro criança a procurar seio, sempre dependente de alguém, um ritual que repulsa a possibilidade de estar só no universo.

Amo porque os espelhos não comportam minhas complexidades, preciso de algo tão complexo quanto eu, e meu amor nasce como fome da alma.

Quando o belo dói, tudo parece imensurável, feito formigas diante das pilastras de uma catedral gótica. Quero tanto... E sou tão pequeno.



Escrito por Ronaldo às 14h00
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Lábios, somente lábios a engolir o pôr-do-sol. Afasto minhas mãos dos bolsos para não me perder em pensamentos... A fome vem feito gafanhotos em tapeçarias verdes, e não adianta o grito de pare! Não há como controlar o desespero da alma, têm pedaços de mim que seqüestram asas quando adormeço, talvez eu alimente tais asas, talvez, a própria destruição. Vivo assim, a construir os infernos que me dão a esperança de alguns segundos, ou mais um sorriso.

Desculpa, mas já nasci com a morte nas costas, só resta saber se danço ou não com ela. E pelo que vi até hoje, ela é divertidíssima, é só não parar de brincar e gozar. E vez ou outra ver o sol nascer ou se pôr longe de casa.

 



Escrito por Ronaldo às 13h59
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O tempo não é mais o mesmo e escorre pelas rachaduras dos anos em minha pele. Perco-me na imensidão em que me transformo segundos, feito corda que gira para não arrebentar pela tensão entre o silêncio e o desespero. É quando fico surdo em músicas e só quero cantar, ouvir ou dançar, rodopiando o corpo numa tentativa de libertação explosiva.

É a frustração transmutada em fúria que me assusta e arremessa-me ao canto do quarto, agarrado aos joelhos para não parir crueldades. Não há roseira que sobreviva à roda-viva sem que acerte algo com seus espinhos. E rosa sem espinhos nada é além de morta.

Já é difícil doer e chorar, e mais difícil é ser privado disso. Sangue e dor carregam a pecha de estorvo neste mundo de sorrisos tão frios quanto o metal que os corretivam e protegem. Sorrisos em jaulas, medos de um mundo que rouba quase tudo.

Assusta-me a possibilidade da perfeição tornar-se tão acessível quanto um pão francês, a arrogância perde os limites na auto-suficiência e nos extremos da tão venerada auto-estima. É preciso faltar algo ou depender de alguém para que ainda haja um mínimo de tolerância e amor. O amor sobra onde há mais falta, é a natureza comprovando a sapiência de tentar a eternidade.

Estou envelhecendo, e um pedaço de mim já começa a racionalizar os sentimentos mais nobres. Hoje sinto o amor – que ainda me faz ver cores – uma função de defesa como a fome, dores diferentes pela mesma auto-preservação.

Se eu desisti de amar? Nunca! E mesmo que minha razão confirme ser o amor uma ilusão, é de todas a que levarei comigo com maior prazer, juntamente com a ilusão do olhar, a do tempo, a do som e a de que possa haver a eternidade.

Acho muito estúpido que toda a existência humana extinga-se em ossos e cinzas. É de uma mediocridade tamanha supor que o pensar seja somente pulsos elétricos de um cérebro que nos engana, embora eu tenha a quase certeza que ele nos engana na maior parte do tempo.

Quando assisti ao filme 21 Gramas fiquei a pensar sobre o que de nós realmente somos. Se formos somente vinte e um gramas de energia, nossa complexidade é inimaginável, é por isso que não me exijo ser simples, além disso, nunca conseguiria.

Sabe naquelas horas em que se quer dizer uma simples frase, e a única coisa que vem à cabeça são milhares de músicas ao mesmo tempo? Estou assim, desejando que meu cérebro possa executar todas as músicas, filmes, livros e outras lembranças, que amo tanto, ao mesmo tempo. Às vezes tenho sonhos assim, pura alucinação prazerosa, bom demais. É por isso que adoro estar sozinho, é quando todo e qualquer desvio extremo não possui julgamento, é quando surto e tenho os meus melhores momentos de prazer. E embora eu adore multidões, tem escândalos que só é possível fazer sozinho, sozinho diante do universo.



Escrito por Ronaldo às 13h58
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SUMMERTIME

 

O verão termina ainda quente, e eu sentindo vontade de transformar paredes em toalhas, com meu lado maldito aflorando raízes de meus poros. O piano e um toque, suaves como a pele a frigir de desejo.

O tempo desaba sobre meu corpo, sinto o grave de sua voz e a ausência de gravidade nos pensamentos. O possível se reverte em tudo.

Na cama sem degraus a temperatura sobe, o sangue ferve e infla a carne. É quando os delírios fluem entre as mãos e os pensamentos inquietam-se, sem paz e sem cais.



Escrito por Ronaldo às 13h55
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VAZIO

 

A paixão apaga-se dentro de mim, invento amados para preservar as últimas brasas e evitar que a porta se feche para sempre. Minha felicidade agarrou-se a outros caminhos, a belezas não compartilháveis; caminhos perigosos, cheios de egoísmos e necessidade de sobrevivência.

É o medo de sentir a riqueza, há tanto tempo acumulada, vazar entre os dedos. Medo que a frieza do real roube o pouco que me resta para continuar.

Guardo muito bem escondido o pedaço de mim que não tem preço, o qual realmente cuidei e alimentei com o melhor do caminho que percorri. É nele que estão minhas verdades inquestionáveis e minha força maior, tudo aquilo que me faz abrir os braços e saltar das alturas com um sorriso no rosto. É onde o choro e a gargalhada se misturam, sem limites.

O vazio cresce, a lacunar o espaço protegido pelo medo. Não sei o que é pior, se a coragem sem sucesso ou a tentativa de sobrevivência. Os olhos não mais procuram, chega um tempo que cansa observar o sol brilhar ao longe sem a possibilidade do toque e possíveis queimaduras. É quando o peito aperta, e os pensamentos começam a distorcer a razão, fazendo da realidade um território de risco, aberto a todo tipo de insanidade. Outros medos surgem e o vazio aumenta.

Não há muito a falar, as palavras começam a perder a fé no possível, e só me resta a perdição. Infelizmente o desperdício é moeda corrente e, definitivamente, migalhas não mais me enganam. Ou corto o bolo ou nem me atrevo a beliscar.

Sei que meu discurso soa desistente, e é. Mas tem algo aqui dentro que me regurgita sempre que chego aqui, no limite. Parece uma necessidade de purgar a negação e seguir em frente, um discurso que berro, amasso e jogo no lixo. Sinto cada palavra dita, mas resisto em concordar com uma mísera vírgula. Só sei que dói. E dói tanto que prefiro dizer, mesmo não querendo acreditar no que digo. Talvez a razão seja a sua própria destruição, talvez seja preciso verbalizar um pensamento para percebê-lo estúpido, quem sabe isso seja testar estradas ou possibilidades. Continuo vazio, mas testar os “talvez” possa aliviar as distâncias.



Escrito por Ronaldo às 14h37
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ADENTRO

 

Dois garotos a girar, rodando um mundo sem eixo

Dois garotos a rodar no mundo, cegos e em sexo

 

Mar adentro, mar adentro, fora de mim

Mar há dentro e fora de ti

A lua é doce e o sol é salgado, na pele

E o mar... O mar cede à sede que nos consome

 

Dois rios a correr, rodando o mundo, sem leito

Dois rios a escorrer dos olhos, cegos e sem peito

 

Mal há dentro, só lá dentro
Sentindo o suor de teus cabelos
Mas lá dentro, não lamento
Chove, chove, chove, sempre chove
love, love, love, crazy love

Estávamos cegos, cantávamos... Cegos

Na estrada que não tem nome, nem sim

O final feliz foi cortado pelo último atalho

Na pressa de um beijo imaturo, do desejo duro, impuro

És tu, com outros nomes e rostos estranhos,

Que sempre divide minha cama, tão dividida... Pedaços

O que fazer quando a cabeceira não comporta mais sonhos?

O que fazer com o travesseiro que já perdeu teu cheiro?

 

Pinto, em preto, o espelho da cama para que nada vire lembranças

As velas circundam a cama aprisionando meus demônios

E impedem que meus anjos adormeçam

Sem ti as paredes crescem e dilatam

O medo e sensação de estar sozinho aumentam

E as sombras não mais respeitam a luz

É quando perco tuas mãos na escuridão

E caio mar adentro, no centro da cama, perto do inferno

Na última chuva me perdi, sempre me perco facilmente

Só não me perco de ti

Teu reflexo continua preso em mim

Desde a última vez que suamos juntos

Ao som daquele jazz, do sax a velar o sexo

 

Não há mais fúria, o teatro fechou

Mas continuo com meu ingresso

Se vou conseguir entrar? Não sei



Escrito por Ronaldo às 18h41
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Histórico
10/04/2005 a 16/04/2005
27/03/2005 a 02/04/2005
13/03/2005 a 19/03/2005




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